
Abaixo o IKEA!!!
Bom, antes que me crucifiquem, uma vez que o IKEA é até certo ponto querido do povo Europeu e uma referência de produtos de qualidade satisfatória, design interessante e preços que não nos esvaziam a carteira, tenho que pedir que me dêem a oportunidade e me explicar.
Estava eu a ver um canal desses tipo Discovery Channel, porque adoro documentários, quando começou um daqueles programas com título tipo: Mega alguma coisa, sei lá, Mega Empresas, Mega Fábricas, algo assim. Enfim, não me lembro. Também não importa. O que importa é que começou o tal programa e eis que o assunto é o IKEA. Nada mal, até aí. Vi o programa todo. Mostrava muito do grupo empresarial, de seus parceiros fornecedores, seus produtos de maior sucesso, seu conceito, etc.. Aquela balela toda...
Na parte que mostra as enormes instalações de diversas fábricas onde é feita grande parte dos produtos que o Ikea vende é possível ver os enormes galpões absolutamente mecanizados com a mais alta tecnologia na fabricação em série, automatizada e em alta velocidade de milhares de unidades diárias de um referido produto. Tudo isso apresentado com o maior orgulho e como se fosse a melhor coisa do mundo. Bom, aí começa minha revolta. Chega a haver gente que acha isso fantástico.
Tá bem, devo admitir que também acho fantástico, mas no sentido do absurdo! Acho surreal vermos coisas desse tipo na televisão e ainda nos tentarem vender a idéia de que isso é avanço, desenvolvimento, sinónimo de contemporaneidade.
Ouço dia após dia as pessoas a reclamarem dos efeitos da crise, ou das crises econômicas que nos atingem ano após ano mas são, na maioria, incapazes de se questionar sobre os comportamentos do nosso cotidiano que corroboram pra o surgimento e crescimento desses fenómenos da economia globalizada.
O que eu quero com o exemplo do Ikea é mostrar como grupos empresariais como este, que produzem e vendem todos os dias quantidades astronómicas de produtos e numa economia de escala tem lucros enormes, entretanto colaboram com menos do que o mínimo para a manutenção de uma economia saudável, pois, além de contratarem pouquíssimo pessoal ainda levam à falência a concorrência local. Esta, coitada, nesse mercado não tem condições de se manter e ter preços competitivos ou garantir a qualidade no caso de tentarem baixar os seus preços.
O resultado disso tudo é que menos pessoas conseguem encontrar ou manter seus empregos e dinheiro pra comprar os meus, os seus, os nossos produtos e serviços. Por conseguinte, nós mesmos temos menos dinheiro pra muitas coisas, dentre elas comprar móveis melhores. Resta-nos o Ikea.
Não é preciso ser um gênio pra perceber a dinâmica do ciclo vicioso.
Em resumo, tenho a firme convicção que uma economia saudável é montada sobre as bases de empresas responsáveis som a sociedade que sustém o mercado que as sustenta. O Ikea e empresas do gênero são, em minha opinião, mais danosas que benéficas para nossa sociedade e não me furtarei o direito de questionar sua influência em aspectos que vão além da aparência da minha sala de estar ou do meu quarto.
É claro que se forem ao site do Ikea vão ver uma versão completamente diferente, cheia de palavras bonitas a respeito do papel desempenhado pelo grupo nas questões de responsabilidade social e também ecológica. Marketing lá dentro é que não falta. Pode-se ainda argumentar que não é responsabilidade da empresa que seus fornecedores prefiram usar robôs a seres humanos. Sinceramente, eu não engulo nem uma coisa nem a outra.
Se me perguntarem se preferiria pagar mais caro por um móvel para minha sala, respondo: “Sim, da mesma forma que gostaria que meus clientes pagassem melhor pelos meus serviços.”
Se você, apesar de tudo que eu disse até agora ainda acha que não tenho razão, respeito plenamente o seu direito de pensar diferente de mim. Pesde que pense algo a respeito me dou por satisfeito.
Se entretanto você sofre do mal da preguiça social e é do tipo: não tenho nada a ver com isso ou o que ganho eu com essa conversa toda? então tenho o medicamento certo pra você! Estou lançando no mercado o revolucionário: supositório de ouriço do mar!
Ideal pra pessoas como você, que não se importam com um pequeno desconforto no seu dia a dia.
Pra que ele serve? Provavelmente pra nada. É mais uma daquelas coisinhas inúteis da vida, como pensar.
